sábado, 16 de agosto de 2008

O meu professor é assim


O cansaço da vida
Causado por outros cansaços
Assusta os jovens, que já descalços
Também sabem do desencanto.

Mas a diferença de idade
Não consegue ser explicada
Quanto o velho não sorri
A criança ainda é animada.

Vocês podem reparar
As pessoas de cabelo branco.
Não se interessam mais
Pela simpatia e beijo na boca.
E vestem qualquer roupa
Pois nada embeleza um manco.

Os olhos baixinhos, olhando
De forma ressabiada e impura
São resultado de decepção
Por isso os velhinhos falam
Cuidado, a vida é dura.


Fábio Coelho (12.08.08)

Eu não quero tirar Dez


O Joãozinho, garoto bom na escola
Nunca vi pegando cola
Estuda o dia inteiro.

Já a Maria, menina inteligente
Que conhece muita gente
É um pouco mais feliz.

Não julgo o João, nem julgo a Maria
Mas só temo que um dia
João não vá gostar

De tirar sempre a mesma nota
E vai abrir a porta
E querer se libertar.

Pois essa batalha não significa nada
Quando vem a madrugada
E o lixeiro já acordou.

A honra ao mérito não depende
De diploma. O que importa
É a soma do esforço
Que o moço acumulou.

E se minha mãe me chama
De pentelho porque meu
Boletim está vermelho
E eu não tiro dez.

Não quero ser igual
Ao Joãozinho que
Só vive sozinho.
Tenho meus próprios pés.


Fábio Coelho (14.08.08)

sábado, 9 de agosto de 2008

Ping Pong


A vida é tão especial, você nem imagina.
Mas agente entende, não há grilo.
Fica tranqüilo que todo mundo
Dorme porque tem preguiça de pensar.

Quando a gente não tem mágoa
Fazer gentileza é muito fácil
É só um pedaço do que se pode fazer.

Fazer qualquer filtro de sonho
O café na mesa eu também ponho
Preza para amigo é um prazer.

É que tem alguns dias que a alegria
É maior que a agonia
Quando não há problema de se admirar.

Não é feio perguntar para o mendigo
Se ele tem algum amigo e fazer lembrar
De outro tempo melhor.

Não precisa achar estranho o ato súbito
Sem sentido, nunca feito, improvisado.
Que alguém lhe retorna seu instinto forte
Em forma de sorte, como tímido recado.

Fábio Campos Coelho (09.08.08)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O Pânico da existência


Sei lá, é uma sensação estranha. É como se eu me sentisse dentro de mim mesmo, como se eu fosse um só, mas em algumas situações, dois ou até infinitos; incontáveis, na verdade! É uma paranóia. Paranóias são legais. Confundam a mente do humano, mas pelo menos tem uma função de emoção. Às vezes, por insegurança, acho que meu segundo Eu sempre deve estar vigiando meu primeiro e puro Eu, sendo que ele sempre sabe que está sendo protegido. É estranho. Afinal de tudo, eu estou dentro de mim e todos eles são Eu. Mas, ao mesmo tempo, sei que sou só um, por lógica. É lógico! Quando fiz alguma coisa de que não gostei, eu fico com vergonha de mim mesmo, como se voltasse essa estranha sensação de que não sou só um. Aí a situação é a seguinte: eu fico me assistindo, o Eu “Ele” me olhando com decepção por meu segundo Eu ter vacilado. E eu, de fundo, fico envergonhado do meu “Eu Ele”. Só entenderá isso quem tem esforço e ausência de vergonha.

Fábio Campos Coelho (2006)

Yo Yo


Eu como um garoto bom, vivia na concentração
Prevendo um amor com cheiro de novela mexicana.
Esperava a vida inteira lendo livros românticos,
Pois amor fácil e rápido tem caráter sacana.

Um garoto muito pacato, com calma, sem trauma, nem grilo.
Gostava de ouvir a voz da experiência, peralta, mas tranqüilo.
Ouvia as lições de vida que meu avô dizia, com cara de mistério,
Ele falava que com amor não se brinca; aquilo era sério.

Porém, como a adolescência é muito afobada,
Não espera nada, com uma pressa danada,
O truco nem a cerveja nessa hora funciona.
Então eu confesso, predominou a testosterona.

Passos e passos na noite, um esforço de iogue.
Nenhuma carona, nem mobilete, nem jogue,
E finalmente, muito de repente, o inferninho apareceu.
Um corpo de égua com mão de vaca me cedeu.

Nem promessa, nem Lero-Lero, nem Fanta adiantaram.
Meus joelhos esfolaram, as cordas vocais não agüentaram.
Era escuro, eu não via ninguém, porque não havia sol.
Mas vi na minha frente, arrumado e cheiroso um lençol.

Então, todo aquele grande sonho lindo acabou.
A minha princesa agora era chata, sem paciência.
Tinha experiência, mas não tinha a crença
De que aquilo tudo era um sentimental iô-iô.

O io-iô se levanta, sobe e nunca desiste.
O brinquedo dava a volta ao mundo, mas não cuspia
E a égua com mão de vaca reclamava triste
Até que eu me ofendi, e o prazer virou agonia.

Hoje vi que a emoção não está no lençol arrumado
O meu jeito agora é revoltado, sem dinheiro e grilado.
Espero que alguém ame de verdade meu io-iô.
Acho que tenho de escutar mais o meu avô.


Fábio Coelho (05.01.08)

Problema de Desenvolvimento


A virtude vem a mim, mas eu não a ela
É situação vergonhosa que eu confesso
Tudo está aqui, na minha frente
Mas quando tudo está perfeito...

Chega de repente meu defeito,
O pior de todos: impedimento de me evoluir.
É revoltante isso. Alguém aqui já teve nojo
Do seu próprio pensamento?

Eu me recuso a lembrar do absurdo
E vou em frente, sempre crente
E talvez um dia essa mania de querer
Ser igual a todos seja um pouco diferente.

Então, finalmente, serei o supremo dos vitoriosos
E vou mostrar à minha querida mulher
Isso vai depender, talvez de Deus, mas,
Com certeza, se eu quiser.


Fábio Campos Coelho (2006)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Uma viagem na madrugada


Tédio, talvez conseqüente.
Expressão apressada e feita.
Solidão, vazio, pouco orgulho.
Pouco desvario, muito desafio.
Curiosidade, fragilidade de espírito.
Amor próprio, poesia bonita,
Erros genuínos e inocentes
Alegria expansiva.
Muita historia pra contar
Romances engraçados
Beijos apaixonados acho poucos
Mas bom de se lembrar
Pouca experiência em muita idade
Liberdade quase sem fundamento .
Milhares de confortos.
É tão perigoso isso que eu já enjoei.
Quando o carro anda demais, parece
que a estrada ta no fim. Mas só parece,
porque talvez as placas não dizem nada
e a gasolina então seja a salvação
de cagada, de destino; já tava escrito!
já tava escrito que eu iria ser feliz.

Nem pouco importa o carro, nem as rodas.
O futuro é tão amigo meu que nem me
preocupo qual o seja. Afinal, a sorte
é mais gratificante que uma linda viagem!

Fábio Campos Coelho
(2006)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um pingo de Razão


Tem dia que a borracha é minha serva
tem dia que a cerva trabalha em mim
que é quando a arte não tem graça.

Tem hora que é difícil combinar sentido com palavra.
Tem hora que de tanto esforço
a obra acaba em uma desgraça.
Tem gente que só pensa em botar algo de perfeito
mas no fim se esquece da raiz que realmente dá o efeito.
Tem gente que elogia sem saber o que é e depois aplaude
justa e somente pelo fato de ser uma mera poesia de alarde.
Aí é que está o problema:
essa gente com mania indecente de adorar
um conjunto de versos de que nada entende.
Parem. Isso já está me deixando doente.
Eu não quero gerar briga
nem qualquer tipo de confusão
eu não quero ver intriga
e nem chamar atenção.
Eu só gostaria, alheios queridos
que aguçassem seus ouvidos
pra que as frases tenham seus verdadeiros sentidos
e pelo menos um pingo de razão.
E por último, eu lhes peço um favor: que perpetuem, também,
as que vierem de qualquer coração.
Fábio Coelho (Dezembro de 2006)

Ali no Posto


Se juntássemos os tempos vazios
Aqueles de puro tédio, sombrios
Daria pra fazer um filme de um só artista
Que por tristeza seria protagonista.

E em tal filme cheio de lamento
O ator vivia de arrependimento
De ter o tempo e não aproveitá-lo.

E com a sua vida tão constante
Largou aquela vida agonizante
E fugiu para sempre com seu cavalo.

No meio do caminho o rapaz sortudo
Encontrou uma menina que estava ali
Por coincidência e não tinha a crença
De encontrar aquilo tudo.

Eles voltaram para o lugar onde
Se grava filmes, o antigo cenário
E fizeram o final juntos com
O seguinte aviso: que mudar de caminho
A procura de alguém nunca é prejuízo.

Fábio Campos Coelho (05.08.08)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Três pontinhos

Sem alheios. Pelo amor de deus. Só são as duas pessoas sábias do que há. A agonia mesmo, meu bem, é que a gente é quem menos sabe. Existia o caminho mostrado através da naturalidade e dos alheios, mas eu já me cansei. Você tem que ver essa mania de chamar a atenção. É o quê? A vergonha dos fracos, dos calados? Quando eu escuto alguma música, meu Deus, me dá uma saudade. Eu me lembro de circo, porque me dá alegria. A verdade é que o cotidiano cansa, mas você não me cansava. E depois de muito tempo... você vai ver que o choro é prova de alguma existência. Que delícia falar do que ninguém imagina!


Fábio Campos Coelho (22.11.07)