sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Monólogo com minha morte


Morte, grande e respeitável morte, que não me deixa em paz ao saber que um dia te terei, ou tu que me terás, tanto faz. Quando penso na certeza de que ninguém tem chance de se eternizar, nada, nem mesmo a voz de Elis Regina me ilumina; e ainda bem que não, pois comparada a ti, morte, a luz não tem significado algum, só me ilude, e ninguém gosta de ser iludido, mesmo com conforto.
Deveria existir o direito de mudar a lei da vida, tirando-se a obrigação de morrer, porque ninguém merece saber que, o que quer que faça, todo mundo morre; não adianta!
Todo mundo morre, menos você né, morte? Até que você poderia ser um tipo de termo opcional. Aí nós optaríamos em te ter ou não. Os tristes poderiam optar em morrer, mas sobrou pra gente também? Vou te confessar, morte: às vezes eu preferiria nem nascer, que assim não saberia que um dia terei que morrer.
Mas me lembro de que se eu não nascesse não teria o prazer, o prazer de tudo, até de ficar conversando com você, mesmo que seja um monólogo. Talvez você foi inventada para valorizarmos mais a vida. Imagine se você não existisse, morte, esse mundo viraria uma bagunça, ninguém aproveitaria o dia, porque saberia que tem uma vida infinita pela frente.
Olhe só, morte! Você que nem tem culpa de existir agora é tão culpada de tanta tristeza por causa da sua existência, essa inevitável existência que não sabe fazer nada, senão fazer o outro deixar de existir.
Morrer: um verbo vulgar, mas também tão doloroso. Sim, é doloroso pensar que nada mais tem importância para quem está dentro da morte. Nessa ocasião nem mesmo a felicidade exige algum sentido, uma vez que nem o sentido e nem a felicidade existem quando se morre.
E quem sou eu para falar o que existe depois de você, morte? Sou mesmo um pobre vivido, mas pelo menos vivo, e por isso ouso tanto assim, porque sei que depois de morto não poderei mais falar nada. A vida é compensada quando nela há ousadia, e compensa mais ainda ousar se ela for realmente só uma.
Seria interessante se estivéssemos em um sonho, fora da vida, onde nada seria verdade, mas seria impossível, porque para sonharmos primeiro temos que nascer. É impossível: temos que vir para a vida.
Às vezes eu fico pensando que só por causa de você, morte, a filosofia, o esforço para passar no vestibular e um grande amor não passam de um vetor sem seta, que embora procure todos os caminhos, só acha um: você, morte.
Se não fosse tão pensativo, eu lhe perguntaria por que tive que nascer mesmo sem ter pedido. Perguntaria também porque existe tanta injustiça e outras coisas. Mas agora eu me canso de pensar; e mesmo cansado, sei que você, morte, não tem culpa de ser odiada, pois não passa de uma conseqüência. A conseqüência não tem culpa, tem causa. E a causa é a vida, que é culpa também.

Fábio Coelho [30/01/08]

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