terça-feira, 1 de julho de 2008

A sabedoria


Escute, meu amigo, eu sei
Anda tudo bem contigo.
Mas não vai achar que
Essa gloriosa estabilidade
Exemplar e justa personalidade
Não pode te derrubar.

Eu sei, meu caro amigo.
Já aconteceu comigo.
Quando tudo estava bem
No auge da segurança
Veio uma simples criança
Dizendo verdades que eu esquici.

São verdades bem simples
Que os adultos esquecem
Por causa do costume de cansaço.
E então, de tanto viver a vida
Não querem mais embaraço
E acabam com preguiça de pensar.

Mas as coisas não são assim, meu rei.
Por que atrás da Bíblia e enciclopédia
Da gramática e do dicionário
Do livro antigo escondido no armário
Está alguma lei.

Que se despedaça em valores
Que você tem preguiça de entender
Porque entender a verdade é muito problema.
Então você diz que já bastam os seus
E problemas ninguém quer ter.

Porém, se você não seguir os velhos conselhos
De justiça e humildade
Quando você tiver com um pouco mais idade
Vai se arrepender.

Não entenda a voz da sabedoria
Como algo que quer te humilhar.
É que com o sofrimento do dia-a-dia
Alguém tem de a verdade avisar.

Fábio Coelho (01.07.08)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Relatividade




A experiência, conseguida
Pela multidão de segundos
É conseqüência desses mundos
Mas ainda há muito idoso rabugento.

A experiência tem medalhas,
pois já ganhou grandes batalhas
com a infantilidade e o sofrimento.

Mas com toda moral e coluna reta
E o coral que canta a ela
Não há motivos de arrogância.

Pois a maior humildade
Talvez é ter a saudade
Daquele tempo de infância.

Quando seu avô te disser
Que se você quiser ficar velho antes da hora.
Não desrespeite, não fale nada.
Mas aproveite a rapaziada e dê o fora.
E dê o fora, e dê o fora!

Fábio Coelho (25.06.08)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

SIlêncio


O silêncio se manifesta sem falar. Há manifestação mais simples?
É prova de muita tranquilidade e a já descoberta de que ter culpa não é ser culpado.
Embora o barulho de toda festa seja impulso para a vida, o barulho do silêncio é mais profundo, e quando se fala em profundidade, aquilo que não pode ser esquecido é o lugar aonde um pensamento consegue ir.
O silêncio dá liberdade de se ser triste, pois com a ausência de rumor, a principal diversão
é inventar algum problema, mesmo sendo esse inexistente.
Os ruídos dos carros são bons para quem tem ouvido lembrar que a vida ainda existe,
mas não é tão bom quanto o barulho do silêncio, posto que o silêncio não tem barulho e o barulho dos veículos não oferece a viagem para fora do cotidiano, sem a balança de certo ou errado,
sem a razão do que é ser ético para sempre ficar dentro do grupo dos homens normais, cujas ações são esperadas através do constante costume de fazer tudo igual.
O silêncio, portanto, é uma salvação para o esclarecimento da realidade, que só é enxergada
no escuro e que às vezes, ao colocar a culpa no seu pecador, se disfarça de justiça, tantando
ocultar o segredo de que não passa de simples vocábulo.


Fábio Coelho (23.06.08)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

BOA!


Boa? E você ainda me pergunta se a vida é boa?
Não é boa pra quem não foi compensado a viver; isso sim.
A vida é boba e pode até ser ilusão. Reclamar dela sem motivo, porém, nem sei se é ingratidão ou burrice, lembrando que essa última nasce pela pretensão, também.
Qual será a mulher, dona de minha vida que cuidará dela como nem mesmo eu sei ainda? Isso é mistério mesclado com curiosidade de menino solitário. Qual será a mulher dona de minha alegria teoricamente eterna, proprietária dos meus pensamentos genuínos, da minha paixão grandiosa e até das minhas artes por pura pureza e necessidade? Eu gosto de coisa esboçada, de arte, de alegria por acaso.
É engraçado que a alegria por acaso diferencia de todas as belezas cotidianas, não dizendo que essas sejam promíscuas, porém quem é alegre puramente não tem o desagradável direito de ser intrometido por um bêbado ou invejoso, pois sua virtude é o resto de que sobrou no universo e a salvação para os que não tem mais esperanças. Na verdade, eles devem ser agradecidos, por transmitir viço para os mais vis, como eu e você.
Obrigado, portanto, pessoas felizes, que, por ética ou perfeição de espírito, dizem que, talvez e felizmente, nossa vida seja eterna!

Fábio Coelho (sem data)

Lá vem a baiana


Eu to com cara de adulto, como se tivesse milhões de coisas pra lembrar.
Talvez seja esse vazio que demora passar pra ser substituído pela alegria.
Eu vejo o tempo, ele me vê, pede autorização pra passar, eu deixo, então,
sem ver, sendo feliz a cada minuto. O meu ato não é errado, mas um pouco
ou muito ingênuo, quem sabe. Feliz é quem vive pra gastar a vida; quem
existe pra se arriscar e conhecer o medo; é quem vê no problema algo de exercício.
A maioria dessa gente, inclusive eu mesmo, tem mania de achar que ser triste é ruim.
A vida é como um sonho: tem seus prazeres e seus medos, e quando a tragédia chega de verdade nós nos defendemos acordando pra realidade. Essa é a mais bela realidade: viver sem olhar pro passado. O futuro nos importa, mas o presente mais, pois é a estrutura do futuro; e o problema de quem sonha demais é o presente mal vivido. O verbo sonhar já se traduz: nunca chega à realidade. A realidade sim é gostosa, está sempre em conversa harmônica conosco, nos mostrando as maravilhas e avisando quando existe perigo ou sua probabilidade. A realidade é como a verdade: dói por ser sincera, e a dor é nossa melhor amiga, já que mostra toda a realidade, coisa tão necessária. O sofrimento passa, é só momento, alegria também. Os dois se repetem pararelo, oposto e simultaneamente, até chegar o fim, a morte. E ainda tem gente reclamando ou questionando sobre o sentido ou o princípio da vida. É tão simples que chega a dar mistério. Eu vivo falando que o tempo é uma surpresa; e continuo.Meu pensamento anda meio flutuando, mas maduro como eu, nesses últimos tempos

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Dúvidas Mortas




Hesito hoje demais.
Não sei se faço isso ou aquilo
Pois depois de algum ato
Talvez eu não o faça jamais.

A origem da dúvida é essa:
Nasce do exagero do ócio,
Do pensamento e das férias,
Que, por serem vagas,
Deixam-nos assim também.

Se eu vejo alguém jogando sinuca
Logo penso em sair na madrugada,
Mas se eu pegar um moto táxi
Alguém que me ama fica preocupada.

E então?
Você, que já é um rapagão,
Que tem tanta determinação,
Histórias de garanhão.
Anda agora na indeterminação
Entre o mais mero sim e não?

Mas que vergonha, meu compadre!
Confesse longe, ao bispo ou padre
Que a pressa é a que mais te atormenta
Porque ela faz parte de adolescência,
E lhe produz afobação inútil.

As coisas são simples, tão misteriosas.
Assim que é fácil fazer um poema magro,
Pois hoje não tinha assunto e nem sentido.
E o que eu quero com tudo isso?


Fábio Campos Coelho

Poema, Feito em uma madrugada de 2006.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Escravas letras



Desejo aqui falar de muitas coisas
Mas tão muitas são essas que acabo no vazio
Desse papel, que faz tudo o que eu quero: pinta
Meu pensamento, dispõe-se sempre, e permanece
Para, na hora do meu brilhante auge de poesia,
não haver desperdício e dó.

Assim é a vida das letras:
Elas são material de construção de alguma obra,
Iluminadas de sentimentos e vontade de ser feliz.
Escravas de qualquer inspiração, sofrem mandamento
Das mesmas coisas de todos os dias,
E sempre diferente do dia passado.

Mas também não são coisas muito sérias
Como tais metáforas.
As letras não têm alimento,
E por isso aceitam qualquer lápis:
Aquele que tem como tinta lágrimas,
Aquele que escreve por pura diversão
E aqueles que inventam qualquer besteira
Para ela continuar viva, em forma de arte,
De descanso e sede de leitura.

A letra não tem culpa de existir;
A culpa é toda dos fatos,
Que dão continuidade à nossa vida passada
E dona de eternos adjetivos.

Vida vagabunda não compensa;
Te dissipa sem você trabalhar.
Meu deus, existe atividade mais feia
Do que essa de ver que o mundo
Anda e mesmo assim não andar com ele?

E quando eu chego perto dessa situação
Logo corro pra varanda
E varro qualquer livro literário,
Dicionário ou a gramática
Pra não me incluir nos homens de conforto,
Que não estão errados
Mas também não têm a aventura
De conhecer o que ainda não conhece.

É assim que se faz qualquer coisa boba,
que no final se torna bonito.
Na verdade é meio engraçado,
pois o direito é todo meu e o bom mesmo .

É que eu não falo pela letra,
mas a letra fala por mim.
Eu não tenho culpa de produzi-las de qualquer modo,
Como estou a produzir agora,
Sem nenhuma preocupação.
Portanto, não se preocupe, mesmo se
Você tiver nessa situação na qual estou:
Escreva a escrava.
Aqui não existe abolição das letras.

Fábio Coelho (2006)

É horrível!


Eu fui fazer um belo poema
Homenageando algum problema
Que eu gosto de observar.

Mas não consegui escrever
Aquilo que eu pensava ser
Tanto fácil de se falar.

Mas nunca tinha acontecido um absurdo desses
Eu buscava achar algum motivo
Para aquele estranho empecilho,
E o que achei foi só revolta.

Meu Deus das idéias, não faz isso de novo.
É só isso que eu te peço
Foi um sufoco, eu te confesso
Que quase quis aposentar.

Fábio Coelho (28.03.08)
01:17 da madruga

terça-feira, 17 de junho de 2008

Epifania



Epifania, minha senhora magnífica, minha pérola natural, causadora de meu sucesso. É o processo sublime que vem em forma de conseqüência do dia-a-dia e me faz supremo da poesia. Sem querer, sem palavras lindas, eu vou andando sem futuro, olhando para o escuro e tentando sentir o que sentia a três minutos atrás.
Epifania, é você que me faz outro, de forma verdadeira. Quem está ao meu redor pensa que é superficial ou estranha. Mas eles não sabem que o momento de inspiração é a hora ideal. O papel e caneta se tornam apenas escravos, cobaias acessórios da obra do século.
O que ninguém jamais viu sempre esteve com todos nós na hora do banho, da viagem a Caldas Novas ou na hora do mau cheiro.
Você é imprevisível, vem do nada e me traz grande desespero quando não há registros. Mas quando existe possibilidades, eu, junto ao meu dom, faço eternidades, cidades e brinquedos. Quem mandou eu te conhecer, epifania?
Agora a cola é permanente e o prazer se desenvolve com curiosidade de amanhã. Aham, eu não me prendo a um mundo só. O seu tom é como dominó: uma idéia leva a outra e assim por diante.
É tão engraçado como a inteligência verdadeira é repentina, na escada ou na esquina. Pode ser aqui ou ali, qualquer lugar. E um dia eu vou fazer a perspectiva mais pura com o meu próprio xixi.


Fábio Coelho (2006)

domingo, 15 de junho de 2008

Artimanhas


Algumas mulheres não são bonitas apenas pela beleza ou pelo corpo. Talvez a beleza mais agradável para um homem está no sorriso de dentes perfeitos, lábios carnudos de cor-de-beterraba, e a língua passando, não sei se é sem querer ou pra atrair mesmo, devagarzinho, como se tivesse limpando a felicidade e tranqüilidade da experiência. A cara virada pro lado, olhando profundo, com ar de juventude presentemente eterna faz lembrar uma praia de Guarujá lotada, onde as ondas são pequenas, mas a miscigenação é linda.
O auge da beleza é quando os olhos param de olhar não sei pra onde para olhar para os seus, e então o garoto leva um sustinho que não dá raiva. Ele também não perde a linha, retrucando o seu sorrisinho de simpatia vigorosa, mas sabendo que não é quase nada perto do dela; só é um pouco de algo porque houve o troco que ela queria.
Primeiro vem a educação, com desgraçado e estranho sotaque de goiano, cortando o diminutivo e o plural, mas que deve continuar, porque o sujeito não quer decepcionar nem a ele, nem à moça.
O nervosismo, que às vezes não é por infantilidade, mas por falta de experiência, acontece, e seguido por ele o gaguejo, sem muito direito de se repetir, senão a continuidade se perde, se desprende. Um bom rapaz sabe dosar o papo, como sabe também dosar a simpatia excessiva. O fluido do papo é sinal de que a moça não está achando o indivíduo chato, como muitos que vão diretamente ao assunto.
Se existir burrice a maior é ir diretamente ao assunto. Essas coisas desarmam a coitada, cuja arma é a sua própria preservação, construtora de toda sua moral e que a deixa mais feminina, com demonstração de que é preciso haver conquista para só depois experimentar o prazer.
Aliás, nem a mulher deve ser rápida. Assim o rapaz não sente o processo que lhe dá a razão justa da posse. Todo rapaz gosta de saber que sabe lidar com seus desejos e no final conseguir o alvo-passarinho. Isso lhe dá poder, e tal poder é prova de que existe nele a capacidade de ser homem suficiente para possuir alguém do sexo oposto, preferencialmente uma menina daquelas bem difíceis, razão pra orgulho de menino empolgado, que no dia seguinte conta pra todos os amigos a vitória do ano.
Mas, meninas, não se aborreçam, nem se emburram com ele, que, se vocês não percebem, isso também é uma forma de enaltecê-las, diferenciando-as muito das outras. Eis aí então o que vocês tanto gostam: ter o prestígio de ser a preferida por algum moço, a única garota, a primeiro-lugar, a primeirinha.
E depois de muita conversa, é você, machão, que deve tomar a iniciativa, pois é instinto da mulher conquistar. Logo, por conseqüência, é obrigação de você falar a ela o que tanto queria. Um dos maiores erros do homem, se não o maior, é não atacar logo, porque se atrasar vira um “apenas amigo”, tanto citado pelas mulheres que não foram sufocadas por boca-a-boca pelo vacilão salva-vidas de princesas que sempre usarão bóias. É difícil aceitar isso, mas levar um fora dá bem menos arrependimento do que não aproveitar o momento certo. As meninas, por terem sonhos e adrenalina, gostam de meninos malandros.
O conteúdo está na atitude. Mas sem traumas, garotos, porque a atitude uma vez conhecida é sempre usada, com aquela mesma vontade de pular na piscina de um muro proibido. E se você não levar o não desejado fora, manda ela cair dentro e então pode colher o que você plantou. Agora só lhe resta tirar o caldinho da fruta mais gostosa da árvore.


Fábio Campos Coelho 10/10/07