segunda-feira, 14 de julho de 2008

O engenheiro


Só falar de amor é complicado
Parece papo preso em cadeado
Eu prefiro mudar de assunto.

Por que pensar em romantismo,
Se é o romantismo que nos faz
Pensar? E às vezes pensar só
Acaba de afundar o sofá.

Um dia um engenheiro, que fazia tudo
Era um bom trabalhador,
Sabia a medida da força do martelo,
Construía igreja, praça, escola, castelo.

Foi chamado para fazer uma obra,
Mas que obra mais difícil!
Ele tentou com todo sacrifício
Procurando o ideal artifício
E não deu conta da missão.

Pois a obra não era medir
Nem pegar no cimento.
É inútil o conhecimento
Quando se fala em coração.

(27.03.08)
Fábio Campos Coelho

sábado, 12 de julho de 2008

Dia do tímido


Antes eu era tímido, agora sou mais ainda. Mas a timidez é merecida por poucas pessoas, apenas aquelas que acham que ela não deve ser escondida, porque ser tímido significa ter vergonha; e vergonha é se importar com as coisas. Não dar importância às coisas que se faz e acontecem é muito fácil, que graça tem? A cabeça pra baixo no elevador, o ato de puxar papo para não ouvir o silencio constrangedor, o sorriso meio forçado e tenso, não olhar no olho do próximo, se fazer de um personagem mais rebelde, tudo isso faz parte de quem não consegue ser falso, de quem é tímido. Não é questão de burrice, é questão de precaução improvisada. Viva todos os tímidos que não têm vergonha de sê-los. E tem verdade mais escancarada que essa?

Fábio Coelho (30.03.08)

Honras próprias


Certo dia estava meio assim, meio duvidoso, sem saber se ia seguir um caminho descente, que é o melhor e o mais saudável, ou se ia seguir aquele sem honra, fácil que se não é vazio contém somente um triunfo com gosto de vazio. O primeiro é que precisa de mais esforço, aquele que prova a vontade de cada um e seleciona os melhores e em quase 100% das vezes, humildes também. O segundo caminho é aquele mais aberto para compromisso, mais tentadora e menos fácil. É aquelas que te inferem a pensar que a vida é um pouco simples, ou muito, quem sabe. Mas quem é que disse que a condição da existência da felicidade é a existência da facilidade? É por isso que eu gosto dessa vida. A cada minuto ter um desafio, um meio fio que oferece conhecimento gostoso; essa é uma das coberturas do sorvete da vida, são essas coisas que nos deixam mais satisfeitos por nós mesmos, por ser útil, seres pensantes. Só, somente só!

Fábio Campos (sem data)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O costume de viver


Depois de ler todos os livros, sejam eles sagrados, escritos pelos empregados gênios das rainhas, ou pelas crianças, o que se tira de teoria é o esboço de um vácuo, sem muita afirmação, tampouco justificativa, pois o guru que muito pensa se acostuma com a praxe de não concluir resultado concreto e depois dorme sempre igual, com a sensação extremamente verossímil de ter feito curso acerca da atitude humana em vão. Infelizmente, para os que querem criar verdades intactas sobre a conduta humana, pensar muito não seja a solução, talvez! Então, a satisfação fica para aqueles que não exigem explicação lógica para as traições e os medos. Esses sim, dormem mais tranquilos com a sorte de não saber que ser ignorante não infringe a ética; é apenas opção inconsciente. Sorte a deles!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Também acontece




Não se importe com ela
Que daqui a pouco ela volta
Eu digo isso meu irmão
Porque já vivi a dificuldade
Que um amor tem para
Se confessar.

É assim mesmo,
Você fica pensando de noite
Sozinho, porque ela tanto
Demora pra descobrir,
Mas ela tem medo de da
Escada gigante do amor cair.

Mas não perca a paciência nego,
A escada é ferramenta de delicadeza
Enquanto um sobe o outro agüenta
Que é pra provar paciência e gentileza.

E outro conselho de garoto sofrido
Se ela cair lá de cima não julgue,
Nem reclame.
Mesmo o homem mais perfeito
Do mundo um dia dá o seu vexame.

E quando você estiver com a cabeça
Quente demais não vai sair na rua
Fazer besteira, quebrar copo, rasgar retrato.
Só vai conseguir ter respeito
Aquele homem que, mesmo com as
Decepções inesperadas, ainda é sensato.

Eu lhe garanto: quando você estiver
Na descrença do amor, desanimado
E aflito.
Ela vai te pedir perdão e os dois juntos
Na escada vão subir até o infinito.


Fábio Coelho (09.07.08)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sexo


E algo bruto, coisa divina. Vai devagar primeiro, continua continua.
Depois acelera, estimula estimula. A todo instante mantém uma certa comunicação com minha consciência,
avisando que está tudo bem e que o ato é sempre assim
é exercício delicioso, violento, prazeroso
é o momento em que você bota todas as vontades cotidianas no pote cheio de maravilha notória. Faz bem à saúde, oferece um sorriso esperto e pilantra.
Arrebenta a meiguice, elimina a timidez e mostra a coragem.
é bom é muito bom; é um vício que nem os pais contestam.
O seu resultado é o alívio, seu começo é pirracento e ansioso e o meio é essencial.
e se alguém intrometer, meu Deus do céu, em um segundo acaba com a moral.
É safada, necessária apaixonada mas nunca precária.
Surge em qualquer lugar e quem insiste em desistir é alvo de tentação e consequentemente tormento. Nossa, como é um sofrimento não poder saber de toda maravilha oferecida pela própria natureza.
Quem fala que é pecado é infeliz e invejoso, pois não há arte mais alegre que esta. Pode causar estrago, mas um estrago que não faz mal.
Gera gente, coloca uma semente no buraco do inferno. Vai, volta, vai volta e assim vai constantemente.
Até que uma hora um homem inocente finalmente confessa que não tem mais forças e sente que seu grande, invencível e valente machado foi traído e sugado pelo mais belo e cínico monumento feito por Deus: o orifício do Diabo!

domingo, 6 de julho de 2008

João e Pedro


Era uma vez um menino que se chamava João.
Quando crescer ele queria ser um bom pedreiro.
Quando João cresceu arrumou um amigo chamado pedro que era pedreiro.
Um dia João perguntou para Pedro:
__O que você faz?
__Eu sou pedreiro, e você?
__Eu também queria ser pedreiro para construir muitas casas.
Pedro, como era muito bom falou para João:
__Estou construindo uma casa e vou levar você para me ajudar.
E os dois foram trabalhar juntos até 1996.
E como Pedro não tinha casa, só João tinha, ele convidou o seu amigo para morar com ele.
Quando terminaram de construir a casa, saíram procurando outro emprego.
Como eles eram bons pedreiros acharam nova construção para fazer.
Eles eram felizes porque trabalhavam.
Ficaram ricos e saíram do emprego.

Fábio Campos Coelho (1996)

Passa-Tempo


Entre os dedos havia cabelo. O mistério agora escondido se deve à vergonha de se mostrar, que se for exposta alguém percebe. Alguém pergunta por que não se deixa falar de tudo. O outro, do outro lado da calçada, separada pela rua da diferença de personalidades, coçada a cabeça, pensava... Demorava pra responder, mas depois, de forma muito simples, dizia que era direito seu. Ta certo, é isso aí. Eu, o escritor, e o mesmo cara que demorou a responder o outro são as mesmas pessoas. Mas esses três são de mesma personalidade, ou será que não? Lógico que sim, são sim! O jeito de pensar é diretamente proporcional à ocorrência dos fatos. Já pensou quanta coisa já aconteceu na sua vida? Se algumas dessas coisas não tivessem ocorrido, as conclusões seriam diferentes. O caminho do seu destino, você e sua criatura amada: tudo seria diferente. Mas não viemos falar disso. Aqui, no papel, isso não faz muita importância. E como o que acontece no papel tem importância para o escritor, o mais relevante é isso: Causar a euforia de tentar saber o que está por trás das letras. Volta-se lá no primeiro parágrafo para tirar alguma interpretação. Mas não; só quem escreve sabe o que escreve.
Mas para tudo isso há uma explicação: O escritor sempre esteve tentando provocar no leitor a vontade de descobrir o mistério, porque a caneta também não consegue descobri-lo. Mas se a graça do mistério é sua própria existência, deixa pra lá. Tudo é passa-tempo, como a vida.


Fábio Coelho
(01.07.08)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ouro preto


Por que querer morar longe de todos?
Para conhecer outros sotaques
E depois ver que os melhores parques
Ficam aqui na sua cidade?

Por que querer mudar de vida
Se a vida vai continuar a mesma?
Algo diferente pode até
Acontecer, mas não vai passar
Do dinheiro a mais do aluguel
Que você terá de pagar.

Para que procurar tantas repúblicas
Se você já mora numa casa
Onde tem a empregada, o irmão
E os pais que sempre acordam
De madrugada pra conferir
Se você está realmente bem.

Por que sair da sua cidade natal,
Onde tem a galera alto astral
Para morar sozinho e chorar
De saudade, mesmo com tanta
Liberdade de acordar mais tarde.

Faz o seguinte: você vai lá e testa
Se realmente tem muita festa
Que de verdade vai lhe agradar.
Mas como menino você se comporta
E ainda não sabe que o que importa
É uma só pessoa que o possa amar.


As cachoeiras têm água transparente
E a gente não consegue achar paisagem melhor.
Mas antes de você mudar, use a mente:
Não poderá mais tomar banho de água quente
Ouvindo Jorge Ben Jor.


Fábio Campos Coelho
(04.07.08)



terça-feira, 1 de julho de 2008

A sabedoria


Escute, meu amigo, eu sei
Anda tudo bem contigo.
Mas não vai achar que
Essa gloriosa estabilidade
Exemplar e justa personalidade
Não pode te derrubar.

Eu sei, meu caro amigo.
Já aconteceu comigo.
Quando tudo estava bem
No auge da segurança
Veio uma simples criança
Dizendo verdades que eu esquici.

São verdades bem simples
Que os adultos esquecem
Por causa do costume de cansaço.
E então, de tanto viver a vida
Não querem mais embaraço
E acabam com preguiça de pensar.

Mas as coisas não são assim, meu rei.
Por que atrás da Bíblia e enciclopédia
Da gramática e do dicionário
Do livro antigo escondido no armário
Está alguma lei.

Que se despedaça em valores
Que você tem preguiça de entender
Porque entender a verdade é muito problema.
Então você diz que já bastam os seus
E problemas ninguém quer ter.

Porém, se você não seguir os velhos conselhos
De justiça e humildade
Quando você tiver com um pouco mais idade
Vai se arrepender.

Não entenda a voz da sabedoria
Como algo que quer te humilhar.
É que com o sofrimento do dia-a-dia
Alguém tem de a verdade avisar.

Fábio Coelho (01.07.08)