quarta-feira, 18 de junho de 2008

É horrível!


Eu fui fazer um belo poema
Homenageando algum problema
Que eu gosto de observar.

Mas não consegui escrever
Aquilo que eu pensava ser
Tanto fácil de se falar.

Mas nunca tinha acontecido um absurdo desses
Eu buscava achar algum motivo
Para aquele estranho empecilho,
E o que achei foi só revolta.

Meu Deus das idéias, não faz isso de novo.
É só isso que eu te peço
Foi um sufoco, eu te confesso
Que quase quis aposentar.

Fábio Coelho (28.03.08)
01:17 da madruga

terça-feira, 17 de junho de 2008

Epifania



Epifania, minha senhora magnífica, minha pérola natural, causadora de meu sucesso. É o processo sublime que vem em forma de conseqüência do dia-a-dia e me faz supremo da poesia. Sem querer, sem palavras lindas, eu vou andando sem futuro, olhando para o escuro e tentando sentir o que sentia a três minutos atrás.
Epifania, é você que me faz outro, de forma verdadeira. Quem está ao meu redor pensa que é superficial ou estranha. Mas eles não sabem que o momento de inspiração é a hora ideal. O papel e caneta se tornam apenas escravos, cobaias acessórios da obra do século.
O que ninguém jamais viu sempre esteve com todos nós na hora do banho, da viagem a Caldas Novas ou na hora do mau cheiro.
Você é imprevisível, vem do nada e me traz grande desespero quando não há registros. Mas quando existe possibilidades, eu, junto ao meu dom, faço eternidades, cidades e brinquedos. Quem mandou eu te conhecer, epifania?
Agora a cola é permanente e o prazer se desenvolve com curiosidade de amanhã. Aham, eu não me prendo a um mundo só. O seu tom é como dominó: uma idéia leva a outra e assim por diante.
É tão engraçado como a inteligência verdadeira é repentina, na escada ou na esquina. Pode ser aqui ou ali, qualquer lugar. E um dia eu vou fazer a perspectiva mais pura com o meu próprio xixi.


Fábio Coelho (2006)

domingo, 15 de junho de 2008

Artimanhas


Algumas mulheres não são bonitas apenas pela beleza ou pelo corpo. Talvez a beleza mais agradável para um homem está no sorriso de dentes perfeitos, lábios carnudos de cor-de-beterraba, e a língua passando, não sei se é sem querer ou pra atrair mesmo, devagarzinho, como se tivesse limpando a felicidade e tranqüilidade da experiência. A cara virada pro lado, olhando profundo, com ar de juventude presentemente eterna faz lembrar uma praia de Guarujá lotada, onde as ondas são pequenas, mas a miscigenação é linda.
O auge da beleza é quando os olhos param de olhar não sei pra onde para olhar para os seus, e então o garoto leva um sustinho que não dá raiva. Ele também não perde a linha, retrucando o seu sorrisinho de simpatia vigorosa, mas sabendo que não é quase nada perto do dela; só é um pouco de algo porque houve o troco que ela queria.
Primeiro vem a educação, com desgraçado e estranho sotaque de goiano, cortando o diminutivo e o plural, mas que deve continuar, porque o sujeito não quer decepcionar nem a ele, nem à moça.
O nervosismo, que às vezes não é por infantilidade, mas por falta de experiência, acontece, e seguido por ele o gaguejo, sem muito direito de se repetir, senão a continuidade se perde, se desprende. Um bom rapaz sabe dosar o papo, como sabe também dosar a simpatia excessiva. O fluido do papo é sinal de que a moça não está achando o indivíduo chato, como muitos que vão diretamente ao assunto.
Se existir burrice a maior é ir diretamente ao assunto. Essas coisas desarmam a coitada, cuja arma é a sua própria preservação, construtora de toda sua moral e que a deixa mais feminina, com demonstração de que é preciso haver conquista para só depois experimentar o prazer.
Aliás, nem a mulher deve ser rápida. Assim o rapaz não sente o processo que lhe dá a razão justa da posse. Todo rapaz gosta de saber que sabe lidar com seus desejos e no final conseguir o alvo-passarinho. Isso lhe dá poder, e tal poder é prova de que existe nele a capacidade de ser homem suficiente para possuir alguém do sexo oposto, preferencialmente uma menina daquelas bem difíceis, razão pra orgulho de menino empolgado, que no dia seguinte conta pra todos os amigos a vitória do ano.
Mas, meninas, não se aborreçam, nem se emburram com ele, que, se vocês não percebem, isso também é uma forma de enaltecê-las, diferenciando-as muito das outras. Eis aí então o que vocês tanto gostam: ter o prestígio de ser a preferida por algum moço, a única garota, a primeiro-lugar, a primeirinha.
E depois de muita conversa, é você, machão, que deve tomar a iniciativa, pois é instinto da mulher conquistar. Logo, por conseqüência, é obrigação de você falar a ela o que tanto queria. Um dos maiores erros do homem, se não o maior, é não atacar logo, porque se atrasar vira um “apenas amigo”, tanto citado pelas mulheres que não foram sufocadas por boca-a-boca pelo vacilão salva-vidas de princesas que sempre usarão bóias. É difícil aceitar isso, mas levar um fora dá bem menos arrependimento do que não aproveitar o momento certo. As meninas, por terem sonhos e adrenalina, gostam de meninos malandros.
O conteúdo está na atitude. Mas sem traumas, garotos, porque a atitude uma vez conhecida é sempre usada, com aquela mesma vontade de pular na piscina de um muro proibido. E se você não levar o não desejado fora, manda ela cair dentro e então pode colher o que você plantou. Agora só lhe resta tirar o caldinho da fruta mais gostosa da árvore.


Fábio Campos Coelho 10/10/07

sábado, 14 de junho de 2008

Escrever


Escrever é distrair a tristeza
com a alegria que se tem,
mas que nunca é observada.
Escrever é cavar o buraco
desnecessário de se cavar
e quem cava é só
quem quer lembrar.
Escrever é provocar o leitor
para alguma conclusão
inexistente, porque a preguiça
de pensar ainda existe.
Então é só inventar alguma
teoria independente de concordância
alheia para perceber que
não vale a pena ser triste.
Escrever é quebrar o prato
no chão da cozinha e não varrer,
porque o escritor sabe
que a correção também é imperfeita
e o experimento é necessário
antes de ele morrer.
Escrever é ter a respiração alterada
por causa da agonia ou desalegria
que passa por ruas de realismo
até chegar ao endereço.
É a tal mania de quem escreve
e ao choro não fica imune,
mas não nega seu velho costume,
pois sabe que sua caneta não tem preço.
Fábio Campos Coelho [14.06.08]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O amor


O amor só é bom porque é complicado, dá medo, gera gagueira e acelera o coração.
O amor é uma palavra, um substantivo abstrato, uma ilusão. O Minidicionário daqui de casa fala que amor é atração espontânea e intensa por alguém ou por alguma coisa. Ele só está certo porque usa a palavra “espontânea”, senão o conceito seria diferente pra cada um, seria alternativo.
O amor é ridículo. Mas ser ridículo não é motivo de vergonha. É inventar e viver aquilo de que na vida muitos têm vergonha. Amar é burrice consciente, é um horror. Quem ama tem instinto de animal exclusivamente racional. O meu cachorro só ama por causa da convivência; o ser humano também, mas o meu cachorro não exige sentido para amar, a gente exige, mas nunca sabe qual ou como é pelo fato de ele não existir. E ainda na circunstância de sentimento, embora sejamos racionais, somos mais burros que os cachorros, animais irracionais. Mais burros e mais felizes, graças à existência da criatura amada, que só existe para fazer o amado conseguir ver os próprios defeitos, impossíveis de ser por ele vistos. O amor não é perfeito, é a tentativa de experimentar a contradição entre o bom e o ruim, o choro e o riso, a simpatia e a má educação. É o que mais chega perto daquilo que achamos sobre a vida, por isso é o sentimento de que mais gostamos, até mais que o tesão. Porque o tesão é parágrafo, o amor é uma redação de pré-escola: parcialmente errada e totalmente à vontade.
Fábio Coelho (03.12.07)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Clarice lispector


Agora não importa nada! A concentração é o núcleo de tal tema abordado. Não importa sentimento, épocas, nem mesmo o livro que eu leio que é pra me dar sono. É alguém legal, uma mulher simpática ou um cara gente boa, alguém cuja relação comigo é totalmente estável e talvez seja por isso que acontece isso, para não acabar a educação e a sensação de reciprocidade querida. Quando a pessoa começa a falar eu paraliso; paraliso em um dos olhos e depois os meus, juntos, vão entrando somente nesse único olho, entrando tanto que eu perco a concentração do que a pessoa está me dizendo. A concentração da conversa é totalmente substituída por essa, que me parece ser agonizante, como duas aulas seguidas de física que parecem nunca acabar. Então, cansado de olhar no centro do centro da retina do primeiro olho, eu passo pro outro, até chegar o limite da concentração que suplantou a primeira, e eu variar de olho pra olho, como se fosse um corpo com aceleração infinita grande, batendo sem parar em duas paredes paralelas separadas por um espaço muito pequeno. Aí de repente a pessoa pergunta: “Não é mais ou menos assim?”, então eu digo: “O quê? É, é mais ou menos, eu acho”.



Fábio Campos Coelho
23/11/07

terça-feira, 10 de junho de 2008

Conselhos


Tem gente que não vive sem um deleitoso martírio, só pra saber e sentir que essa vida ao menos mostra algum sentido, embora seja ele totalmente abstrato e indefinido. Poisé. Eu, por excelência pessoa em primeira pessoa do singular, admito: é preciso ser desconfiado com o tempo, e para os escritores, quaisquer palavras estranhas ou raras descontam o tédio e vazio que ascendem quando se está na sala de estar, e o almoço já está pronto, mas nem a fome tira o corpo do sofá. Não estranhe quando acontecer isso, pois não é motivo de vergonha, nem ter esforço em ser vagabundo. Vergonha mesmo é não ter vergonha, isso sim. O ilustre personagem a que me aludo ultimamente é o inerte e cínico cotidiano. Por que ter ressentimento com nosso cotidiano se ele nunca deixará de existir? Pra que o fel com o cotidiano, se é ele que suscita a tranqüilidade depois de pensar nos problemas individuais com que ninguém se importa, senão você? Pondere antes de xingar a vida. Eu sei que ninguém pediu pra nascer, nem tem culpa de existir, mas já que está dentro da sua própria vida, seja peremptório em relação a ser um garoto insólito, no bom sentido da palavra; tão insólito ao ponto de ser inconfundível através do estilo próprio. E não se preocupe; o estilo próprio vem com o tempo e muitas das vezes com o desinteresse em tê-lo. Fique esperto com quem não te pareça falso no elevador. Seja mais calado do que autoritário na oratória, pois todo orador tem seus defeitos. Muita gente tenta arranjar defeito em você, portanto ser tolhido por opção nunca é desperdício. Debelar o próximo quando esse não tem a mínima razão gera fumo, orgulho nada mais que desnecessário, gera a adrenalina da maldade, que todos nós temos, por sermos imperfeitos. Portanto, aprenda a valorizar o seu silêncio. Caso contrário seja você mesmo e faça esses pobres influxos entrarem-lhe por um ouvido e sair pelo outro. Afinal, que besteira tentar dar conselhos ao próximo, se quase sempre não conseguimos ser o próprio espelho-fonoaudiólogo? Liga não, é que às vezes os conselhos saem em forma de desabafo, a exemplo todos esses.


Fábio Coelho (28.11.07)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

As criançinhas já são adultos


O meu princípio deve ter acontecido numa cama, mas o princípio do meu princípio... A este sim eu agradeço, senão essas teclas não fariam barulho agora. A minha existência é a salvação da minha alegria, mas o pronome possessivo na primeira pessoa é muito egoísta, prefiro mudar de assunto. Mudar de assunto, todavia, seria idiotice, pois falar de si é como conhecer alguém interessante, nunca se quer parar.

Às vezes eu fico pensando em todo processo de navegação, colonização e imigração, e a tudo isso associado o amor. É lógico, se não fosse essas circunstâncias, essas teclas não fariam barulho agora. Pode até ser loucura, mas uma das minhas filosofias é agradecer a Cabral, a alguma sorte e à mala pertencida a meu tataravô que o fez voltar ao Banco porque lá tinha a esquecido, e que lá ele conhecera a minha tataravó, cujo nome nem tenho idéia de qual seja.

Tudo isso por causa do amor, da consideração e conforto afetivo. Ou será que tudo já estava predestinado por Deus? Aliás, você vê Deus como um velhinho, de barba branca e tal? Ou vê ele como a força da natureza, ou a simpatia e esforço das pessoas boas? Energia? Ou tão somente o vácuo? Até parece piada, mas é papo sério, afinal, é o sentido do universo e da vida.

É uma pena não saber se Deus realmente existe. Ou será que não? Eu te faço perguntas mesmo, perguntas que eu não sei responder. Pensando bem, se Nós soubéssemos se Deus existe ou não, tudo perderia a graça, pois assim o velho e prazeroso sentido da vida não existiria, perderia um pouco da sua essência, até porque a fé gera esperança, e esperança é puro desejo, que não passa de princípio de prazer.

Falando em princípio, a gente volta ao início desse papel, que se prosseguir, vira ciclo, como os da biologia. Aliás, a própria vida é biologia. Mas será que é só biologia? Nem o microscópio, a fibra ótica, o cientista podem responder. A solução então é sonhar como criança, que ainda não sabe de onde vem. Mas elas também são iguais a nós, adultos, não sabem pra onde vão. E se perguntar é em vão, é melhor não procurar sentido. Ou procure, mas só para sonhar, depois tem que acordar e continuar a viver.

Fábio Coelho {30.05.08}

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Difícil Ofício



Difícil Ofício


Escrever para o vento
Tranqüilo e desatento
Não é tão bom assim.

Se existe a adequada palavra
Faça com que o sentido se abra
Por favor, faça isso por mim.

Não esclarecer é um absurdo
Parece que o mundo é surdo
Mas ele tem ouvidos sim.

E quem fala com vontade
Mesmo que doa a verdade
Valoriza a capacidade

De mostrar o que acontece
Com toda gente que cresce
Mas não consegue explicar.


Fábio Coelho (15.03.08)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Incompleta

A felicidade não está aqui; está em outro lugar. Consegue-se alcançá-la, mas o ser humano dista dela porque tem medo ou porque quer ser mais triste um pouquinho mesmo.
É estranho, mas pelo menos aquilo que é estranho também é objeto de estudo. Então a gente nunca fica parado e junto ao estudo pára, e pela tendência de querer não sofrer, abandona o estudo para pensar em alguém.
Pensa, pensa, concentra na criatura que é uma forma de descansar. Mas depois levanta a cabeça para estudar de novo. E se o tema da redação for felicidade? É zero, porque todo mundo foge do tema.
Não é culpa de coesão; é culpa de adequação ao tema mesmo, desviado pela peculiaridade de cada um. Infelizmente bomba no vestibular.
Alguns vão querer ler em revistas o que é felicidade, outros vão perguntar aos mais velhos. Mas eu não, prefiro fazer cursinho a vida toda!
Apesar da fama, alguns alunos de cursinho ainda são felizes, porém só aqueles que não planificam a felicidade, e sim inventam a própria. A coletânea está no que já se viveu e que se vive.

Fábio Coelho (03.05.08)