quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mesa de Jantar


Sentavam-se àquela maneira toda quarta-feira, efusivos no começo e cínicos no final, quando o mordomo vinha com ar de quem sempre quis ser parte daquilo, ter o mesmo sangue e a mesma ironia suntuosa.

O tio não falava com o sobrinho, porque este achava a tia gostosa e não escondia, de forma alguma. Tio e sobrinho se sentavam um do lado do outro, e, por essa proximidade física, o tio abria o braço o menos possível para não encostar no braço do sobrinho. Era o primeiro a sair, com pressa de quem vai olhar as estrelas.

A irmã nunca acudia aos pedidos do irmão, para que ela lhe passasse o queijo e o feijão. Nesse dia o irmão solicitou à irmã o de sempre, ela recusou e então ele mesmo se levantou sem sair do lugar para pegar o queijo. Bateu o cotovelo na cara do tio, o tio deu um miado de gato apaixonado, e a tia saiu de modo esotérico e medroso para ver as estrelas.

O tio viu a esposa sair, deu um beijo no nariz do sobrinho, puxou o catarro para a boca e o cuspiu na cara da avó. A avó, com seus 65 esbeltos e tolos, passou por debaixo da mesa o pudim para o filho do tio que era diabético.

A mãe e o pai, vendo o filho comer o pudim misturado com a batata para disfarçar, colocaram um LP de Arrigo Barnabé, no máximo volume, chamaram o mordomo, passaram-lhe o código do cofre e foram viajar pela América Latina, impassíveis.


Fábio Campos Coelho (05/02/2011)

domingo, 20 de março de 2011

O Enredo que está na vizinhança


É preciso tomar cuidado com as pessoas muito caladas. A não ser os tímidos, os que estão nesse grupo falam pouquíssimo não por pudor, ou por falta de assunto. Lorota! Não falam, pois não podem falar o que pensam. Estão pensando algo malicioso, proibido, algo que os outros não podem saber. O calado é mais astuto que o falador. Não que o falador seja bobo, mas ingênuo, puro, sem nada a esconder. Aquele que fala muito joga suas descrições longas para o ar à vontade, porque suas palavras não precisam de medida. É livre de preocupações em termo de seu discurso. O calado não: por saber que aquilo que pensa deve ser oculto pelo silêncio, mede bem as palavras e as troca através do sorriso, da simpatia dissimulada, com meneios de cabeça denotando “sim” até no momento em que não se precisa de tanta disposição. Os perigosos usam mais a cabeça que a língua. A língua é fraca, covarde incompetente, mostra a falsidade. O pensamento não; é aranha dentro do sapato. É preciso prestar atenção no silêncio excessivo. As palavras foram feitas naturais, sinceras. O seu desuso em momento de seu uso inspira que alguma coisa está errada.

Fábio Campos Coelho (19.03.11)

sábado, 19 de março de 2011

Angústia


Tenho raiva de mim. Estão me acontecendo coisas angustiantes, que vêm de mim. São pensamentos tortos, feios, pecaminosíssimos, cruéis, e o pior: eles aparecem sem eu lhes dar licença; aparecem espontâneos, inopinados. São as reflexões, os desejos mais picantes, e eu fico surpreso por terem vindo de mim, porque suas representações não correspondem ao que eu penso ser legítimo meu. Então eu me puno, tento convencer-me de que não pensei daquele modo desgraçado -- só aconteceu um engano. O mais maçante é a duração dessa tentativa. Fico resgatando o pensamento o mais equivalente possível. Quero repetí-lo da maneira como foi e através desse resgate psicológico, pretendo dar outro tom ao pensamento primitivo, um tom mais suave, mais humano, menos vergonhoso, menos transgressor. Preciso provar-me que não sou tão maldito assim, mas muitas das vezes não chego ao objetivo e fico piscando, em forma de cacoetes, louco, perturbado. É horrível.

Binho -17/03/11-

domingo, 13 de março de 2011

Asas


Acordo.
E o mundo já vem com sua bandeja.
Nela alguém está sorrindo para mim,
com braços abertos, sempre feliz.
É a liberdade.
E hoje? O que queres fazer?
Queres ser o que hoje?
Temos fantasias diversas,
infinitas, na verdade.
Temos atitudes: benevolentes, caridosas!
Ou será que nesse lindo dia
tu estás grilado com o mundo?
A liberdade é ousada, me pirraça
com sua tolerância de sempre,
sua abertura para tudo.
Me condena no final do dia,
dizendo que eu poderia ter sido outra coisa
naquele dia,
que eu não soube usar o silêncio meu
na hora que devia ter ficado calado.
Me condena na hora de dormir,
porque eu fiquei confuso
sobre o que fazer e como fazer
apesar daquela bandeja,
em que a minha liberdade estava,
em que estava um menu esbanjadíssimo, gordo,
um menu amigo e legal, como um pai adolescente,
o menu que todo presidiário e que todo moribundo
queria ter.
Ser livre agoniza.
Quando eu entro num carro com os amigos
o oxigênio rarefeito do ar condicionado vem me prendendo,
me fechando, justamente por ser rarefeito.
Então eu não sei se devo ser isso ou aquilo:
um carpinteiro do universo, carismático e adorado,
ou o cara mais insuportável possível,
porque quem é reto é enfadonho,
e, além do mais, para todo cara legal
existe um dia cinza, de crise,
que é quando o herói vira vilão
sem que ninguém entenda o porquê.
Sou um pássaro.
Entre o certo e o errado existe um horizonte.
Lá eu estou, e namoro os dois lados,
namorico bobo: não sei quem é um, nem outro,
namoro o certo e o errado, os dois,
porque morro de medo de ficar só com um,
ou só com outro.
Sem um, o outro não tem forma, conceito, sentido
e o outro sem o um não existe.
O segredo todo mundo sabe:
não há comparação havendo só um.
É preciso haver o certo para reprimir
e é preciso haver o errado para haver o certo.
Mas a minha asa grande voa sobre o certo e o errado.
Eu lá no horizonte, entre os dois,
e a minha liberdade lá em cima, voando com a minha asa
(a liberdade é a própria asa),
olhando os dois, apagando-os da minha visão.
A agonia de novo.
Minha asa me diz um consolo que não adianta nada:
O que posso eu fazer? Viver é obrigatório,
se você não pediu para nascer...
A culpa não é minha, garotinho.
Penso: errar é humano! Fico aliviado.
Mas não posso pensar muito nisso
porque fico com medo de fazer o mal-feito,
sabendo de sua gravidade
e que depois é só pedir perdão, não tem problema.
Errar é humano.
Ah, como eu gosto da minha asa!
Voo com ela sem medo de nada,
com a respiração limpa, temerária e ávida.
Ávida de só viver.
Mas depois tudo passa
e a hora da satisfação está longe.
E eu vôo, o mais rápido possível
para buscá-la, buscar essa hora.
Quando estou perto, perto,
me lembro de que estou voando,
estou com as asas, é a liberdade
que oferece todos os menus,
cobrindo meu horizonte todo de infinitos menus
com opções novas surgindo a cada instante.
E eu...
Que queria ser livre um dia.

Fábio Campos Coelho 13.03.11

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Será assim?




Na hora de dormir, às vezes me vem aquela agonia vinda de não sei de onde, aquele quadro pungente com um monte de opções de o que pensar. O que pensar antes de dormir? Pergunta tão bonita -- já dizia o Duca. Pergunta tão bonita que não precisa de resposta; ele disse desse jeito. Mas é que tem algumas noites sorteadas pra gente, madrugadas que te jogam na parede e dizem “E agora? Você vai dormir? Não está esquecendo de pensar em nada?” E eu olho para a noite, paro, ando um pouco em círculo, coço a cabeça e me entra aquele abismo, que é pequena fresta ao mesmo tempo. Aquele buraco, sinal de que está faltando alguma coisa no andar do meu cotidiano, alguma prática, uma mera reflexão que deixe a vida mais digna de ser. Parece que a noite, sendo somente nesse específico momento os mortos tranqüilos, na cadeira de balanço da transcendência, que não é céu nem inferno, me dá um toque suave, real e sincero: “Acontece isso com você porque, quando você dorme, está simulando a morte. Cada sono é um ensaio para a morte, e é nessa hora que você não sabe quem é – antes de dormir --, por isso a agonia da existência, essa multidão de vetores dizendo o destino para onde seus passos podem ou devem ir. Vai viver, menino, você tem que apenas viver.” Então, finalmente, eu satisfaço a noite, penso em mais coisas que aquele quadro antes irritante me sugeria, fico tranqüilo e durmo sem saber que estou dormindo. E eu vivo no sonho o momento em que minha morte está iminente, uma tarde com chuva rala, então penso comigo mesmo: "e agora? O que eu vou pensar? O que eu tenho para fazer? Nada, já fiz tudo e tudo se esgotou. E agora, eu vou desembocar no famoso sentido da vida? Eu tenho que ver no que vai dar, já que agora o sono vai ser para sempre. Já sou velho e ainda não sei o que concluir antes do descanso grande."
Acordo sem saber a resposta. E vou morrer sem saber que morri.

Fábio Campos Coelho – 24.02.11
às 03:07

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quando tudo acalma


E depois disso tudo, desse turbilhão,
tempestade que não dá vez para marinheiro,
eu, quieto aqui, estou mais forte ainda,
em contato com o nada simples.

Os outros envergonhados
nos vêm para mostrar que somos demais,
mais que sempre pensamos ser...
Por que só agora nosso valor se abre para nós?

Temos mágoa, mas temos dó
e a dó encobre a mágoa
como um toldo de límpidos gestos,
como o ouro olha a prata
sem saber por que vale mais.

Mas a mágoa fica,
justificando dar firmeza ao enganado
e fazer com que todo o podre acabe de apodrecer
em sossego
mediante a consciência de nosso valor,
porque na mágoa mora a dó.

Quem me fez mal me deixou melhor
e eu não sei se devo curtir minha poltrona
ou mudar o conceito de tolo,
agradecendo aos mentirosos sofredores
pela sua ingênua função de fazer
cada um descobrir o respectivo brilho latente.

Fábio Campos Coelho (17/02/2011)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O velho quintal


Se você me encontrar andando na rua
sem rumo, cambaleando, como um copista,
com a cabeça abaixada, a cabeça vaga
lá na china, ou na casa da avó
não se preocupe, fique quieto,
não me chame.
É eu buscando minha inocência
Que já se foi
desde quando eu penso com maldade
-- essa coisa que a sociedade
me ensinou a pensar.
Não digo que a sociedade seja má:
ela é coitada como eu,
pura como eu,
matreira como eu.
Não deve ser alvo de críticas
de pessoas sem identidade,
que abominam a natureza
Esquecendo que vieram dela.
A sociedade se influencia
e todo mundo cai nesse jogo porque é seguro
e pronto.

Se você me vir cantando de modo estranho
no meio da avenida, onde os carros passam bonitos
como a pressa inconsciente de si,
ou a frustração sem tino jovial que lhe avise
sobre o tempo que ainda resta...
Se você me vir nessa avenida
falando sozinho, numa expressão tola, pobre, magra,
sem indicações de firmeza,
de virtudes encantadoras, de posse de segurança,
expressão muito merecedora de misericórdia...
Não fique com dó de mim!
Eu apenas estou buscando a minha inocência,
lembrando da casa da avó
onde eu era o dono do mundo
sem vergonha de ser ignorante
e, por isso, ensinando o primo mais velho
a ter sua identidade acima de tudo.
De tudo aquilo que parecia ser mais poderoso,
mais rico, mais útil, mais primoroso
que seus passos travessos-originais sobre o telhado,
procurando nada,
procurando ver o horizonte melancólico
e o cachorro lindo da casa vizinha
e, portanto, sendo outro dono do mundo.

Se você me encontrar na cidade
correndo sem porquê, sem me importar
com quem me vê,
fique parado, do seu lado.
Não me grite.
Olha o que eu estou fazendo,
continue olhando.
Sou eu, buscando eu (não mim, mas eu!),
a minha essência perdida
porque eu já sou adulto
e hoje tenho vergonha de tudo,
de gritos ao léu, dos pulos bobos e nossos
-- mais nossos do que bobos --,
encenações repentinas sem propósitos.
Sou eu tentando ver o que há mais
nessa terra de normais, cristalizados normais.
Sou eu procurando aquele velho quintal
Onde tinha um balanço amarelo
em que eu e Maisinha éramos soberanos
diante das verdades do mundo.
Sou eu, me desenrolando da linha que
Eu mesmo coloquei em mim,
desde que fiquei constante,
com barbas altaneiras, bigode patético,
pelos inúteis
e peito estufado.

Me ajuda a ser criança, vó!
Por favor. Me ajuda a ser criança.
Eu não agüento mais.


Fábio Campos Coelho - 01.02.11

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Eu Evaporado


Sento firme, leve, feliz
chega o conforto,
no fundo me sinto morto
não gosto de música assim, consoladora.

Me sento e me sinto bem demais
quando a alegria segura me ataca.
No começo é bom,
mas depois sei que é coisa fraca
boba, banal,
bacana, mas engana, sei que faz mal.

Não sou mais vítima desse bem,
não quero ser quem
fica parado na alegria estática.
Pra que teoria na cabeça?
Eu quero mesmo é prática,
sofrer, amar, temer,
ganhar, perder
para o sempre incerto
reconquistar, pra depois desencanar.

Na manhã seguinte, me aparece
um requinte de mulher,
que me quer mas não quer
e eu entro num abismo necessário
que é uma delícia, pureza e malícia
pro meu itinerário.

Esse vento está me bulindo
e eu nesse indo e vindo
seguindo o fluxo sem direção
de repente estou no paraíso
conhecendo a dor que ensina
e cada vez mais empina
a vontade de ser
discípulo de adão.

Pego o meu desejo e tosto
porque quando gosto, gosto
e aposto que não gosto
não sei o que quero
espero, mas não desespero.
Toda floresta tem um remanso
sem formiga, uma amiga
querendo que eu siga pra lá.

Que vento mais gostoso
que não me deixa parado
eu vou pra cá, pra lá,
em cima, de baixo, do lado
mas quando saio do eixo
é quando estou mais firme.

Sou tronco grosso e valente
o medo é quem se sente
medroso de chegar perto do meu barco.
Agora não tem jeito,
sou dono do mal-feito,
um imperfeito, contradição no peito
sou flecha de qualquer arco.

Fábio Campos Coelho (03.01.11)

sábado, 20 de novembro de 2010

Vivos Salvos pela dor


A alegria é só uma transa rápida; não faz ninguém crescer, embora o suor dê compensadora sensação de movimento. Não é o efeito biológico do sexo, é somente o sexo em si e pronto. A vida, mesmo, não é alegria, não é prazer. Estúpido pensar isso.

Quem vive, em verdade, é aquele que sente o limite de sua estabilidade emotiva, a ameaça da demolição de sua bonança cotidiana, e se vê cão sem dono, perdendo, portanto, seu redentor interesse de passear: eis quem pediu pra nascer mesmo sabendo de todo risco de aquele predileto remanso ser incendiado por uma palha inocente de tudo.

Não devemos culpar nada, é só a vida nos dando ciência de que estamos nela. Um morto que morreu sem brigar com o melhor amigo, sem descobrir as verdadeiras reflexões da esposa linda e sempre carinhosa recalcadas pela prevenção da separação lancinante nunca foi morto, pois nunca viveu.

É preciso deixar de ir ao churrasco divertido para ir de encontro à realidade, ao encontro da reflexão, só para não ser feliz sempre, porque é perigoso se acostumar com o encanto, o conforto e a paz. Os vícios mais perniciosos são das substâncias mais fascinantes e se ficarmos vezeiros com isso, esquecemos de tropeçar e quebrar o braço, só para lembrar que a vida é vida pra quem vê a dificuldade como guru e o suor como compensador de encanto, conforto e paz. Há coisa mais gostosa que ser feliz com a dignidade de sê-lo? Há?

É tão bom saber ser sempre iminentemente possível a ingratidão do cônjuge, a má educação da moça do caixa e a decisão de não cumprimentar por parte de quem sempre é cumprimentado, de sorte que essa imunização nos torne menos surpresos com aquilo que vem do ser humano e do próprio mundo. A vida é difícil, pode acreditar! A aventura é inevitável na vida e a ferida é inevitável na aventura.

A gente vive num sonho verossímil em que, no fim do mundo, Deus estenderá uma escada aparatada de confetes brilhantes com borracha em cada andar, machucando a visão dos tolos felizes – e apenas os que são simultaneamente tolos e felizes – por causa da luz amarelada emitida pelo luxo da escada. Essa escada não estará indicada no rumo do céu, mas sim nas várias direções decididas por cada um que puder subir nela. A única verdade a partir desse momento será que quem não conseguir subir na escada por causa da luz amarela morrerá e ficará vagando em festas aleatórias por todo o mundo. Nós veremos, daqui de baixo, então, lá no final da escada, serenos e atentos para não cair, as mães de deficientes mentais que nunca tinam desistido de viver e os que não estavam conseguindo passar em concursos ou vestibulares há mais de, no mínimo, quatro anos.

Fábio Bin (20.11.10)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A volta do Escritor


A Volta do Escritor



Era uma vez. Não, na verdade eram muitas vezes, quase sempre! Um menino astuto e pacato; eram raras as ocasiões em que era ele o locutor principal na conversa de amigos. Mas, assim mesmo, não tinha a oratória inválida ou vazia. Muito pelo contrário: a idiossincrasia mais calma e quase calada é completamente ligada com sabedoria e equilíbrio, e este também é ligado ao silêncio. Após a explicação de tais substantivos abstratos, não é preciso falar mais nada. O menino tinha o bom exercício não obrigatório de escrever. E era bom naquilo. O que não falava escrevia, troca mais que justa: troca sábia, estratégica, talvez. No começo, escrevia tudo o que pensava, sem pensar na quantidade de assuntos em um só texto. Escrevia de tudo, sobre o que acontecia na semana passada, sobre o conceito de amigos e aquilo de que muitos têm vergonha de mostrar: escrevia sobre si mesmo. Sem nenhuma força superficial de mudar o estilo em relação a palavrão e vírgula fora do lugar. Merecia o prêmio que poderia ter recebido por não ter vergonha se era ridículo, ou vulgar. É uma vergonha os humanos pensarem que não são vulgares, como se sê-lo fosse pecado ou maldade. Desculpe todos os dicionários. Os conceitos na cabeça de cada um se misturam, de vez em quando. O aviso está dado. Meses se passaram e ele evoluía cada vez mais. Tinha estilo próprio. Mas começou a ter qualificação, um jeito sistemático de escrever. A qualificação na geografia é sempre um processo de avanço. Em tal circunstância, porém, foi o pior que lhe aconteceu, porque tudo aquilo que o menino ia escrever tinha que ser qualificado, perdendo aquela aleatoriedade, verve fluente e natural, que, por sua vez, era a coisa mais original nele. Foi um desperdício: ele quase não escrevia mais, porque sua qualificação não o deixava cometer erros vulgares. Foi uma tristeza. -- O que está acontecendo comigo? – perguntava-se. Será que minha maior diversão está indo embora, sem olhar pra trás, com desinteresse, árido? E eu? Onde fico? Ele culpava algo que lhe era alheio, em vez de se culpar, de acordar e ver que a simplicidade também conseguia elucidar qualquer conteúdo. A simplicidade não é pobre nem é rica, é humildemente clara e basta! -- Por que enfeitar o essencial sempre, sempre, se a concisão tira a capa obscura do aparato? -- refletia, em contundente confusão. Ele comparava esse seu caso particular e doloroso com outras coisas. Já chegou a imaginar duas meninas, uma ao lado da outra. A primeira, andando pela rua com o cabelo solto, sandália simples de couro, brinco de pena de animal e saia comprada em feirinha, daquelas bem baratas. Do outro lado, uma menina que já parecia mulher pelo fato de estar usando um tamanco pontudo, complexo, prateado e barulhento; pulseiras com cara de argolas duras e resistentes, também barulhentas e dessa vez compradas em shopping. Uma mulher de cabelo preso, toda ereta e apressada. Pensou nas duas meninas, tentou dar-lhes a mesma idade, para que sua tese fosse justa -- o menino já se desesperava, não entendendo mais porque escrevia tão pouco. Seus pensamentos estavam estéreis, insípidos? Vendo as duas moças, ele preferiu a primeira: achou tão natural aquilo, uma espécie de liberdade bonita, modelo de vida à vontade, intrínseco. Parecia que a menina deixava os problemas pra depois, pra lá, ao ponto de humilhá-los. Sai pra lá, vocês não conseguem me embrutecer. Aquela roupa simples, aquele cabelo solto, em balanço espontâneo à medida que andava lhe parecia tão jubiloso, exultante, feliz. Simplesmente feliz. Depois disso, então, o garoto decidiu cabalmente que seus pensamentos continuavam vivos, viçosos, borbulhando, com vontade de ser passados para o papel. Era a etiqueta que não deixava. Que horror! A partir do remate, ele primeiramente se aliviou, afrouxou-se e deu um berro: -- Ah!!! Eu voltei a ser normal! -- Sentou-se no banco da sala de sua casa e resolveu escrever, queria escrever qualquer coisa, escrever, ver o lápis deslizar atrevido, sem medo ou cautela fresca. O que não devia ter naquele momento era cautela fresca! Tomou ódio daquilo. Não sou fresco! Nem nunca fui. À medida que escrevia, mudava de sensação, e eram sensações gradativas para o positivo, para a direção do frenesi. Acabou o texto, olhou o papel e, na verdade, nem queria saber se estava bom, elegante, envolvente, inteligente ou podre aquilo. O que importa é que ele voltava a ser escritor. Depois, escreveu mais muitas coisas, umas belas e outras inúteis, feias, ridículas. Um dia foi jogar fora essas últimas porque não lhe fazia sentido tê-las, e, de relance, passou os olhos em uma delas. Começou a ler. No meio daquele texto, havia uma frase esquisita. Era feia. Não, não era feia. Era esquisita. Não! Não sabia dar uma característica àquela frase. Era exótica! Sim, aquele trecho era exatamente exótico! Encontrou a palavra certa e então hesitou em colocá-la num papel verde e pregá-lo na porta do seu quarto. Todo dia que chegava em casa e ia deitar em sua cama, via aquela frase, e isso foi se repetindo confortavelmente; não se irritava com aquilo. Pegou intimidade com a frase. Passados quatro meses começara um romance, um belo romance que ficou conhecido pela redondeza e cuja primeira frase era aquela.


Fábio Campos Coelho (UnB)