quarta-feira, 11 de março de 2009

Existencialismo


__A morte, então, seria o nada, a ausência plena de significado para o homem. Por que então temer, meu filho? Por quê? Pois assim, de olhos fechados para sempre, não se sente mais nada. Então o medo é de não sentir mais nada? Pense bem... Se Deus existe mesmo, independentemente do que Ele seja, não projetaria sua vida para que na morte você sofresse, não é verdade? É por isso que eu falo, menino, que você não precisa ter medo: nenhum morto nunca queixou da dor que tem de sê-lo.
__Mas pai, eu não descordo em nada do que você me disse; e assim, mesmo assim eu tenho medo. A gente nunca sabe o que vai acontecer. Viver no céu ou no inferno para sempre... Me dá agonia só de pensar nisso.
__Não precisa ter agonia. Olhe bem, filho! Ouça bem o seu pai. Existe uma verdade, existe; uma verdade que a gente não sabe. E aquilo que tem de acontecer vai acontecer. Por isso, não se pode mudar essa regra. Essa, infelizmente, é a única que não pode ser mudada. Só Deus pode mudar, filho! Só Deus!
__Mas então, se Deus vê tanta gente chorando por causa de pai, de mãe que já morreu, por que ele não muda? Por que ele pelo menos não faz um esforço?
__Esforço, filho? Deus não precisa de esforço para mudar qualquer coisa. Ele é o criador de tudo, dos fenômenos, da física, da alegria e da madeira. Se ele quisesse mudar, já teria mudado há muito tempo, ou até então teria feito um sistema diferente de vida e morte.
__Será? Eu fico pensando... Eu fico pensando... E se não existisse Deus, pai? Quem faria o mundo, o tempo, a os homens e tudo que existe?
__Não tem dessa, filho. Deus sempre existiu. E sempre vai existir, entenda isso.
__Olha, eu vou te falar uma coisa, mesmo se você me contestar depois. É que eu não acredito em Deus, às vezes, sabe pai? Eu fico olhando as crianças comendo lixo, naquela miséria impressionante e depois eu olho para o prédio onde eu moro, esse prédio cheio de conforto. A criança não tem culpa de ser pobre, ela já nasceu na desgraça. Por que Deus deu tristeza a ela e isso tudo a mim? Se Deus existe, ele é injusto, pelo menos disso eu tenho a certeza.
__Filho, deixa eu te perguntar uma coisa: Você já viu o vento?
__Já.
__E você já viu a cor do vento, filho? Me diz. Você já viu se o vento é amarelo, vermelho ou azul?
__Não.
__Pois então, é a mesma coisa. Só me faça um favor: nunca duvide Dele, filho. Ele é a nossa razão, foi Ele quem me criou, você, seu avô. Tudo.
__Está bem, eu não duvido mais.
__Presta atenção. Eu também já fiquei horas e horas pensando sobre isso, se Ele existe ou não, se ele é injusto com alguns, mas não tem solução, filho. Não adianta. Portanto, tenha fé, pois se ele realmente existir e você não acreditar, pode acontecer muita coisa ruim depois da sua morte. É melhor respeitar a existência dele, filho, me ouça.
__Certo, pai, certo. Eu não duvidarei mais de nada, afinal sou apenas um menino.
__Agora vai dormir, filho. Amanhã você tem aula e tem de acordar cedo.
__É, eu vou dormir mesmo.
__Boa noite, durma com Deus.
__Boa noite, pai, amém.

O menino dorme. Tem um sonho. Aparece um corpo com cabeças incontáveis, mais de um milhão de cabeças, bem mais, ligadas a só um pescoço. O garoto percebeu que algumas deles ele conhecia. Uma cabeça era da sua professora de geografia, outra era de uma menina com quem havia se trombado no supermercado há pouco tempo, havia a face do seu irmãozinho que acabara de nascer. Então esse corpo com infinitas cabeças lhe disse:
__Você é um menino inteligente, gostei de você, garoto.
__Por quê? Quem é você?
__Quer saber mesmo quem eu sou?
__Quero, me fale. Quem é você?
__Não fique assustado com o que eu vou falar.
__Eu estou ficando com medo de você.
__Isso. Você acertou.
__Acertei o quê?
__Você acertou, eu sou o Medo. Meu nome é Medo, mas alguns me chamam de Deus.

Fábio Campos Coelho (11.03.09)

Um comentário:

LunaJeannie disse...

CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

PERFEITO!

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