domingo, 6 de abril de 2008

O tempo




Por que você quer crescer, meu grande amigo?
Prefere ter barba e beber a ser criança e ter aquele direito de errar.
Por que você tanto gosta assim do tempo, meu amigo?
Fica inquieto e eufórico pra depois na solidão se lamentar

O tempo é apenas envelhecimento,
traição em forma de simpatia .
Gera, destrói, faz voltar e é traíra.
Sua única filha virtuosa é a experiência.
Mas sim, é lógico. Isso é conseqüência de vivência.

Ciência. Nem ela explica a sua intenção,
se é alegria, vaidade loucura ou ilusão.
Tempo: seco, calado, cínico e infinito
quem será que consegue te parar, dono da morte?

O tempo dá sorte, saudade e arrependimento.
Faz você virar e revirar seu pensamento.
Absorve amores, excreta horrores
e faz rumores nos desejos já cansados.

Mas tome cuidados, muito cuidado, meu amigo.
Que o tempo é seu maior inimigo.
Ele é a sua parteira, te ensina as manhas,
as artimanhas, os charmes e a poesia.

É o que dá agonia quando não se tem mais ele pra ter prazer.
Mas quando de repente você não existe mais
ele continua a sua incrível aventura namorando a sua morte.
Como se não houvesse nada por trás.

Fábio Coelho (2006)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Adolescência


O olhar para o lado direito para ver como o olho dela é lindo. O entrar na sala de aula com cara de sério a fim de impor aos outros que seu caráter merece respeito e interesse.
Esnobar a menina um pouquinho só, que é para ver se ela vem atrás. Dar algum objeto a alguém sem querer troca alguma, só porque caráter diferente é aquele não programado. Fazer graça no elevador para ver se a vida oferece mesmo a oportunidade da posse de alguém. Ter agonia do silêncio, pois o silencio é coisa de quem não tem nada na cabeça. Chorar na frente da criatura presentemente amada para que depois não arrepender de nunca ter sido feliz. Querer viajar para algum lugar bem longe só para se conhecer alguém um pouco mais que interessante. Tentar mostrar os lados bons e esconder as espinhas. Tudo isso é improviso já antes armado que, para conseguir fazer, antes tem que ser um adolescente.É como morrer e nascer; é naturalmente normal. Quando se vê, algo já se consumou. E os adolescentes, esperando cada vez mais, improvisam a solução de viver do jeito como pode e cria. O improviso, sempre inconstante, é a bula de todo mundo que tem a saudável doença de ser adolescente. Não há segredo, cada um descobre o seu para não ser triste.

Fábio Coelho (04.04.08)

terça-feira, 1 de abril de 2008

Finalmente




Enquanto alguns aproveitam o dia
Eu com essa nova filosofia
De ser contrário ao pensamento

Confortável e próximo à razão
Me tranco aqui no quarto
Inventando um sofrimento moderno.

O sofrimento que não tem cara de dor
Me ensina que nem toda cara feia é triste.
E analisando tudo o que existe

Consigo ver que não vejo nada de verdade
Porque essa linda verdade inventada
Pelo homem só é verdade porque é invenção.

Mas a revelação do segredo que
Minha experiência me contou baixinho no ouvido
Anda meio quietinha e calada, ela anda me traído,

Porque toda verdade tem um segredo
Que também tem outro segredo
que tem medo de se relevar.

Então eu sem poder confiar em ninguém
Confio agora só em mim, que pelo menos sou alguém.
E quem sabe venha por aí a verdade verdadeira
Me dizendo que é besteira ficar ouvindo qualquer
Outra verdade que não seja a construída por mim mesmo.

Aí depois disso tudo finalmente eu descubro
A confusão que me afundava da ilusão de que
Aquilo em que acreditava era realmente a verdade
Da verdade, que nunca me ajudou me oferecendo
a felicidade que não se compra na feira, nem
na festa, nem na igreja de trindade.

Agora estou tranqüilo, sem querer entender o certo.
Já que o mundo aberto só confunde
A cabeça de quem quer entender
Mas não entende nada de tanto concluir.

Você me pergunta como consigo ser feliz.
E eu lhe respondo: porque eu quis.

Fábio Coelho (22.03.08)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Amigo


Amigo

Amigo foi feito para
Ser feliz, um bem feito
Que de tão perfeito é assim.

Pensamos que são pra sempre
E realmente alguns são sim
Mas se um dia não for mais
Ainda existirá uma surpresa no fim.

Amigo foi feito para brigar
Senão aquele teu defeito
Que tu deixas em teu oculto leito
Sem você ver, iria continuar.

Amigo foi feito para choro e grito
Quando tu brigas com alguém
E fala em algum amigo ouvido
Que o errado foste tu também.

E quando estás tu aos berros
Chorando por alguém que mal te quer
Algum sempre perfumado rapaz
Ou uma esnobadora mulher.

Estará aquele grande amigo
Que pronuncia o pronome contigo
Diz que o amor sempre abandona
E tanto faz se tu estás agora como pó.

Mas aquele companheiro que não te nega
Que é muito mais um amigo do que colega
Estará abraçado junto a ti mostrando
Que quem tem amigo nunca está só.

Fábio Campos Coelho (31.03.08)
14:20h

domingo, 30 de março de 2008

Tatuagem - chico buarque


A boca é o princípio de tudo. É o que desperta desejo e por isso agoniza quando a cobiça por ela não é transformada em consumação. A boca é realidade, é carne e constrói livros e vidas quando pratica o ofício inventado pela necessidade do homem: o beijo. A boca é exata e ambígua ao mesmo tempo: não sabe se morde com o lábio de cima ou se esfrega com o de baixo, para ver se o carinho também gera tesão. A boca meio aberta, mas mesmo assim em silêncio, que é pra concentrar-se na beleza, o escarlate, a cor cujo raio incidente é o que mais desvia quando chega à retina, e incha o cérebro que perde a razão e a agonia de pensar. A boca é na metáfora a eternidade, pois se baseia no mistério, como um teatro que ainda não se apresentou com as cortinas ainda tampando do olho da platéia a peça. E então, quando tal cortina se abre toda ficção inspirada na realidade se apresenta com seu instinto, o instinto da língua passando devagarzinho, em movimento circular, no sentido horário e depois anti-horário, incessantemente. A saliva alimenta em forma de prova da vida e atitude da esperança, através do tato que só a língua consegue fazer. E o olho? O olho nunca se abre; caso contrário toda viagem cessa, como se alguém do público jogasse um ovo no palco, impedindo a continuação do clímax do prazer.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Cursinho


Não confundo mais o verbo no subjuntivo
Quando ele se parece com imperativo.
Imperativo é o que o colégio faz com você
Porque o substantivo atual agora é vestibular.

Não confie na figura desenhada
A não ser que seja a respeitada UNB.
Confie mais na geometria analítica
Como falei de yo yo mi xoxô para você!

A virose é uma doença grave
Leishmaniose já é diferente.
Mas as duas embaraçam a cabeça da gente
Então pega a matéria da genética!

Você precisa ter mais ética.
Quem acorda tarde domingo
Desrespeita a obrigação de estudar.

Olha aquele garoto trancado
Eu sei que ele parece um retardado
Mas é certeza que ele vai passar.

A Ásia anda meio fedorenta
Tá rolando um cordão sanitário
Mas não vai falar muita gíria
Cuidado com esse vocabulário.

Não é implicação minha
Pode perguntar pra qualquer um
Que a segunda fase é exigente.

Escreva até a ultima linha
Mas não fale muita abobrinha
Que o corretor é inteligente.

Pare de enrolar, levanta dessa cama
Larga esse tédio, leia até bula de remédio.
Estuda história, estuda gramática.

Na faculdade tem muita menina
E quem faz medicina
Nunca mais vê matemática!

Fábio Campos Coelho (23.03.08)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Madureza


A ilusão sempre esteve escondida com ajuda da alegria, porque quando se está alegre nenhuma preocupação é válida; válido mesmo, nesse momento, é a sensação de conforto, sem dúvidas. Essa ilusão um dia deixa de existir, e a chance disso acontecer é grande mesmo quando a velhice chega, que é uma época de surgimento de impotências e fraquezas. Ao ficar sempre mais velho, o ser humano vai perdendo o medo de pecar. Culpá-lo não é tão justo assim, pois isso acontece por causa da percepção de que não adianta achar bonito ser santo e que ter atitudes mais estratégicas é uma forma de defesa. O problema é quando essa defesa se torna ataque, ou espécie de ofensa, consumada pelo próprio costume de ter artimanhas para que os outros não vejam a pessoa mais experiente como um sujeito pobre de qualidades suficientes para ser respeitado. Mas então o pecado começa a existir demais, até o homem sentir vergonha de alguma ação eventual, ou até mesmo habitual. Mas o alívio disso tudo é saber que isso é normal, pois se não fosse, todo mundo seria vilão da própria inocência.

Fábio Coelho (26.03.08)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Física


O amor é uma pilha.
Quando eu a amo
O meu pólo positivo atrai
O negativo dela,
Que não quer gerar energia.

A capacidade da sua gentileza,
Meu Deus, é quase nula.
Anulando assim a potência
do meu desejo de esperar alguma variação
ou alguma força que antes ela mostrava.

Eu até que tentava dar um impulso
Sem pressionar com energia sonora.
Mas não tinha quantidade
De movimento essa senhora.

E o que eu procuro agora
È a intensidade vigorosa
Que em todo momento, toda hora
A gente percebia continuar.

A diferença de potencial
Da minha verdade legal
Talvez a engane, coitada.
Eu não sei.

O ponto de encontro
Entre as nossas ondas,
Energias e união
Foi ficando com a freqüência
Cada vez menor, cada vez menor.

E quando eu passo pelos caminhos
Em paralelo dos seus erros,
Que por sua vez são normais,
Ela aumenta sua tensão.

Até chegar num momento
Em que a minha resistência
Não tem mais esperança.
E inevitavelmente desiste,
Se tornando tênue, tênue.

Fábio Coelho (2006)

sábado, 15 de março de 2008

não me importa




Nada me importa
a personalidade torta
forçada pela necessidade
de mudar a aparência
ou a idade de um ser mais legal.




Não me importa o que eu penso
se eu estou mais tenso
por causa desse universo,
se converso pouco ou demais.

Não me importa
se é certo ou errado
se eu continuo parado
ou andando o tempo todo
procurando sem achar algo fixo.


Meu afixo é prefixo
e sufixo ao mesmo tempo,
porque tudo me importa:


A minha conduta
e a falta de multa
que não me reprime
quando nada me importa.




Fábio Campos Coelho { Janeiro/2008}